Eis aqui um tema complicado, mas que deve ser tratado. Com certeza absoluta eu não sou, como mulher branca, a melhor pessoa para falar sobre ele do ponto de vista de quem sofre com o racismo em um país que, por mais que tente jogar a sujeira para debaixo do tapete, ainda é racista – e muito.
Mas posso, e quero, chamar a atenção das pessoas que, assim como eu, navegam em um oceano de privilégios e não se dão conta disso, creditando muitas conquistas em um sistema meritocrático utópico – para não dizer que é completamente inexistente.
E a primeira coisa que preciso esclarecer nesse texto é que não existe racismo reverso. E, se você discorda disso, o artigo é especialmente para você. Nós, pessoas brancas, jamais podemos reivindicar que sofremos preconceito racial por sermos brancos. A explicação, histórica, é simples: nunca, na história da humanidade, alguém foi oprimido por ser branco.
Mulher? Sim.
Gay, lésbica ou trans? Sim.
Branco? Não.
Então, se você é uma mulher branca, sua fonte de opressão é outra – e eu tô contigo e não abro. Se for uma mulher lésbica branca, ou trans, ou um gay branco, você também tem outras formas de opressão que também quero te ajudar a combater.
Mas a sua branquitude não te faz uma vítima de racismo quando te chamam de “leite azedo”, “Gasparzinho”, “requeijão” ou sei lá quais outros nomes podem ser direcionados à sua cor de pele. Se uma pessoa negra te chama de algo que você não gosta, temos aí um problema pessoal de indivíduo X para indivíduo Y, mas isso não é racismo.
Então, tire da cabeça essa coisa de “racismo reverso”. Isso tá errado e é feio falar.
Assim como falar de “orgulho branco” é falar coisas vazias, porque nenhum branco sofre opressão ou violência por ser, simplesmente, branco.
Veja as novelas, a publicidade, o cinema, a política, as mais praticadas religiões do mundo e me diga: alguém, em qualquer um desses contextos ou outros, já foi excluído só por ser branco?
Já atravessaram a rua só porque viram um branco passar com roupas amarrotadas do lado?
Já perderam o emprego – ou nem conseguiram – porque são brancos?
Eu acredito até em unicórnios, mas se alguém vier me falar que viu alguma dessas coisas acontecer, me tremo toda e digo que não acredito. Porque, muito provavelmente, não é verdade.
Pessoas brancas, como eu, podem ser pessoas ruins e sofrer uma série de exclusões sociais por sua conduta, mas a diferença é justamente isso: para a maior parte das pessoas negras com as quais já conversei sobre o assunto, a sensação é de que elas não precisam nem abrir a boca. A sociedade branca já as difere e as exclui pela pele preta.
Se é preto, é favelado, é pobre, é horrível, não tem caráter… são tantas coisas absurdas que eu fico até com vergonha de escrever – e peço perdão por isso. Mas é preciso acordar a gente branca desse país para a realidade: isso é muito errado e absolutamente desconexo com a realidade. Não há sequer uma única pesquisa na história da ciência que tenha comprovado que os brancos tenham razão ou direito de se achar melhores e mais dignos de confianças e oportunidades.
E, aqui, chegamos ao ambiente de trabalho
O racismo, no Brasil, é crime.
Talvez por isso muita gente pense duas vezes antes de abrir a boca pra falar besteira. Contudo, isso não é o suficiente: precisamos formar uma sociedade que respeite e que entenda que deixar um pensamento racista sequer passar pela cabeça é ridículo.
As atitudes racistas são degradantes, mas o “pensei mas não falei” não faz de nós pessoas melhores.
Basta conversar com um amigo negro para ver que ele ainda sente, em pleno 2018, que é discriminado no ambiente de trabalho de várias formas. Mas só ver, porque imaginar o que é isso é impossível para um branco. Nem se nos esforçarmos muito conseguiremos definir a sensação de perdermos uma oportunidade de carreira, um amor ou até mesmo um simples ônibus por conta da cor da nossa pele.
E a culpa desse sentimento é toda nossa. Sim, até do branco que nem pensa e nem fala nada racista mas que se omite quando isso acontece. Não importa se quem faz um comentário – principalmente em rodinha de brancos – é a pessoa que você mais ama: sua mãe, seu pai, seus irmãos, cônjuges, melhores amigos. Não importa se é o ídolo da sua infância.
Se você presenciar alguma coisa errada, sendo branco, você tem a OBRIGAÇÃO de cortar esse mal pela raiz, porque foi você, eu e essa pessoa branca que se acha no direito de falar merda que toda essa situação de dor, opressão e violência à pessoa negra existe.
E, veja bem: não somos nós quem vai dizer o que é melhor para os negros, pois eles já sabem muito bem disso e não precisam da gente pra descobrir novas coisas. Nosso lugar é o de respeito à dignidade humana e inteligência para entender que a cor da pele não é um agravante para nada. Cientificamente, é apenas uma característica genética.
A mais visível delas. E, por isso, precisa ser amplamente respeitada.
Só amplificando a voz dos negros pela nossa vida branca é que vamos sair do lugar de fala para sentar no lugar de escuta, assistir ao show e mudar o mundo pela igualdade e equidade.
O racismo no trabalho em frases reais
E aqui vão alguns exemplos do que você deve combater a partir de ontem se tem a consciência de que, do jeito que está, não dá mais – e que se qualquer uma das frases abaixo vier do seu CHEFE, de quem PAGA SEU SALÁRIO, essa pessoa deva ser repreendida.
E, na real, talvez você esteja trabalhando para a pessoa errada.
(E, se for você a pessoa a falar comumente todas essas coisas sem nem saber que elas são racistas, leia esse texto quantas vezes for preciso e, mais do que isso, converse com os negros. Ouça os negros. Nunca é tarde para deixar de ser um verdadeiro otário.)
“É preto igual piche-asfalto, mas faz um trabalho excelente”.
“Você nem parece negra”.
“Ah, tinha que ser preto mesmo”.
“Um senhor me trouxe um pente – e era “brincadeira, claro”.”
(Jozi Levi)
“Cheguei na sala de aula e um aluno estava sentado na mesa onde eu iria colocar os materiais para dar aula. Me aproximei e disse: “oi, tudo bem?”. O aluno, com cara de assustado, me olhou e disse:”
“Você é a nova professora?”
(Lívia Horta)
“Que bom ter um negro ocupando um bom cargo”.
“Tá querendo embranquiçar?” – quando faço luzes no cabelo.
“Você é um preto com alma/pensamento de branco”.
“Como tenho duas formações, já me perguntaram, com ironia, se fui cotista nas duas graduações.”
“Quando as pessoas brincam com minha cor, faço questão de deixar claro que não estou confortável para ouvir ou entrar na onda. Se continuam, os laços de amizade são cortados sem ressentimento nenhum.”
(Ramon Almeida)
“Preto quando não caga na entrada, caga na saída”.
“Sua cor é bonita, né? Cor de jambo”.
“Esse aí deve ser chão de fábrica”.
“É azul de tão preto”.
“Você tem os traços finos. Não é negra: é morena”.
(Maiza Lacerda)
“Quando você prende o cabelo, valoriza seu rosto”.
(Tamires)
PS: essa lista vai ser atualizada constantemente a cada vez que um negro quiser dar a ela a contribuição de sua experiência. Aos brancos, só resta se envergonhar, se desculpar (mesmo quando não é você a pessoa quem profere as palavras) e começar a mudar o jogo de dentro pra fora.
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